A desnaturalização das definições da realidade

A DESNATURALIZAÇÃO DAS DEFINIÇÕES DE REALIDADE IMPLICADAS PELO SENSO COMUM

A desnaturalização das definições de realidade implicadas pelo senso comum.
O distanciamento cognitivo: senso comum e conhecimento sociológico.
Problemas sociais e problemas sociológicos. O papel dos conceitos, das teorias e das doutrinas na sociologia. Os exemplos de Durkheim e de Weber.
A construção do mundo social.
Quando, em 1969, o homem pisou pela primeira vez no solo lunar, houve quem não acreditasse e quem se perguntasse se não era perigoso o astronauta cair “lá de cima”. Poucas pessoas, em nossos dias, têm dúvidas a respeito da chegada do homem à lua, e chega a ser motivo de galhofa o fato de alguém imaginar que um astronauta pudesse cair “lá de cima”. Afinal de contas, ao contrário do que parece, a lua não está “lá em cima”. Em se tratando do espaço, não há “lá em cima” nem “lá em baixo”.
Qualquer estudante secundarista sabe que não faz sentido pensar que um astronauta possa cair da lua e, se o sabe, é porque também sabe que, ao contrário do que parece, a lua não está “acima” da Terra. Mas, para saber isto, é necessário haver uma ciência que desfaça a noção de que no espaço há “lá em cima” e “lá em baixo”. Esta ciência é a física moderna, que surgiu somente no século XVII. Até então, o que havia era a física aristotélica e, de acordo com ela, nada haveria de impróprio em imaginar que um homem pudesse cair da lua se algum dia lá chegasse. Estas considerações apontam para o fato de que a física moderna “desnaturalizou” todo um conjunto de concepções peculiares ao senso comum, dentre as quais, as de “em cima” e “em baixo”. Qualquer ciência, para merecer este nome, precisa ser capaz de fazer uma coisa semelhante. Ela precisa mostrar que conceitos perfeitamente aplicáveis em certas situações (conceitos como
os de “em cima” e “em baixo”) não se aplicam a outras. Ela precisa mostrar, em outras palavras, que o entendimento de certos fenômenos requer a formação de conceitos que não se aplicam ao uso cotidiano. A sociologia, conforme veremos neste módulo, não é uma exceção.
Como disciplina científica a sociologia surgiu na virada do século XIX para o século XX em resposta a um desafio metodológico específico: explicar o comportamento humano de uma forma como nem a psicologia nem a economia, as ciências do comportamento humano até então existentes, seriam capazes de fazer. Dois grandes nomes se destacam aí: os de Émile Durkheim (1858 -1917) e Max Weber (1864 - 1920). Embora fossem contemporâneos e vivessem em países vizinhos - Durkheim era francês e Weber alemão - esses autores não chegaram a se conhecer. Eles estabeleceram os pilares desta nova disciplina
de forma independente. Para os propósitos do presente módulo poderíamos enfocar tanto um autor quanto o outro, mas como nos escritos de Durkheim é mais nítido o empenho em se distanciar da psicologia e da economia, como também em desnaturalizar as definições de realidade implicadas pelo senso comum e manter o distanciamento cognitivo entre o conhecimento sociológico e o senso comum, neste módulo podemos nos concentrar em Durkheim. No que se refere a Weber, limitar-nos-emos a mostrar o modo como ele se afasta das noções de senso comum a respeito da natureza do capitalismo moderno.
Émile Durkheim

Durkheim procurou estabelecer esta nova disciplina que seria a sociologia contra o pano de fundo das duas grandes ciências do comportamento humano até então existentes: a psicologia e a economia. Ele via sérios problemas em ambas, e supunha que somente o advento de uma nova disciplina, a sociologia, poderia solucionar esses problemas. Que problemas eram esses? No que se refere à psicologia, seu grande problema, segundo Durkheim, era supor ser possível explicar o comportamento humano em termos de estados individuais, isto é,
em termos das intenções, interesses, vontades e sentimentos dos indivíduos. De acordo com Durkheim, estados individuais não poderiam ser levados em conta em uma explicação verdadeiramente científica porque eram muito sujeitos a alterações. A intenção ou o interesse que um indivíduo tem em um dado momento não será o mesmo em um momento posterior, pois intenções e interesses variam ao sabor das
circunstâncias sociais. Sendo este o caso, à sociologia somente interessava as circunstâncias sociais ao sabor das quais os interesses, vontades, sentimentos, preferências e trajetórias biográficas individuais se formam e se alteram. No que se refere à economia, o grande problema que Durkheim via em relação a esta disciplina era seu caráter dedutivo, isto é, era o fato de ela substituir a investigação científica pelo o que ele chamou de “análise ideológica”. Considere-se, por exemplo, a lei da oferta e da procura, segundo a qual quanto maior a oferta de determinado bem ou serviço no mercado menor será o seu preço e, inversamente, quanto menor a
disponibilidade de um bem ou serviço maior o seu preço. Esta “lei” faz sentido, dizia Durkheim, mas uma ciência não pode se basear apenas no que “faz sentido”. As “leis científicas” precisam ser submetidas a testes empíricos e devem ser capazes de resistir a esses testes. Faz sentido
dizer que o preço de um produto cairá se a oferta desse mesmo produto aumentar, mas é necessário verificar se isto ocorre mesmo. Quando não é possível averiguar se uma determinada afirmação resiste ou não a testes empíricos, esta afirmação não pode ser considerada científica.


Autor(a): Renan Springer de Freitas
Centro de Referência Virtual do Professor - SEE-MG / fereveiro 2010